Guga Stocco – CEO da GR1D e cofundador da Domo Invest. Membro dos conselhos consultivos da TOTVS, B3, Carrefour e Hapvida

No debate maniqueísta que a sociedade vem tendo sobre o mercado financeiro brasileiro, o spread – a diferença entre o custo do dinheiro para o banco e a taxa paga pelo consumidor – quase sempre é o vilão protagonista.

O assunto é antigo. Provavelmente surgiu ao mesmo tempo em que a vida em sociedade, evoluindo para discussões teológicas e econômicas ardentes. Na Idade Média, a abordagem dominante em relação aos juros foi definir que a diferença entre o valor emprestado e o devolvido era uma cobrança do tempo. Ora, mas se o tempo não pertence ao homem e sim a Deus, o homem não pode cobrar por ele! Desde então, muita massa cinzenta foi utilizada na tentativa de vencer esse debate interminável.

Naquela época, comércio e mercado financeiro eram atividades menores, operadas por camadas secundárias da sociedade. Após a Reforma, os povos protestantes conduziram a sua doutrina religiosa a um caminho em que o comércio e os empréstimos não constituíam pecado. Mais do que isso, integravam o crescimento espiritual.

Portugal, no entanto, herdou a cultura católica e a exportou para o Brasil, legislando para limitar as taxas de juros e proibindo a usura. Por certo, em ambos os países, a forte dependência dos capitais de terceiros e as políticas econômicas encontraram terreno fértil para essa restrição às leis de oferta e procura. Essa é uma das origens do limitado mercado bancário brasileiro, que impacta no desenvolvimento econômico. O país acabou restringindo o crédito e as ideias empreendedoras.

A inflação foi outro inimigo cruel para inibir a movimentação de dinheiro na forma de empréstimos. Os bancos preferiram – certamente por razões de risco de crédito – emprestar dinheiro ao combalido governo brasileiro. Somente após o Plano Real e o controle da hiperinflação é que o mercado de crédito começou a tomar projeção. O diabo é que, em meio a tantas incertezas, o mercado de crédito puniu os cidadãos e as empresas na forma de taxas de juros.

Hoje, há discussões sobre a redução da Selic, taxa básica de juros no Brasil, e seu diminuto impacto nos encargos cobrados pelos bancos brasileiros. Há fortes rixas sobre as causas do spread por aqui. Do lado dos bancos, a inadimplência, a pesada tributação, depósitos compulsórios, direcionamento de empréstimos. De uma perspectiva mais ampla, a concentração bancária e ausência de concorrência são, em conjunto com a ganância dos banqueiros, as causas das taxas elevadas de juros.

Não se pretende defender quaisquer dos lados, mas algumas considerações são válidas. Com a evolução dos computadores, tornou-se possível fazer análise de dados em níveis nunca sonhados. Além disso, a estrutura do crédito herdada pela Revolução Industrial se mostrou moribunda. Por exemplo, a análise de crédito predominantemente comprada de terceiros.

Uma grande parte do mercado discute a necessidade de cadastros para redução do spread, mas relega ao segundo plano toda a tecnologia e a capacidade de processamento atual.

O crédito no Brasil é quase que uma moeda de troca entre interesses totalmente diferentes. Compre capitalização e obtenha um empréstimo ou faça um consórcio e tenha autorização para aumentar o limite do cheque especial. O usuário é colocado apenas como meio de retorno financeiro – um número. Os produtos são desenhados em função dos interesses das instituições e não das necessidades únicas de cada cliente.

A estatística hoje é dotada de um poder quase sem limite. Com os big datas, com as análises comportamentais e preditivas, dá para colocar inteligência, criatividade e foco na pessoa na elaboração dos modelos de risco. Segundo a Lei de Moore, a capacidade dos computadores é duplicada a cada 18 meses, mas não existe um banco brasileiro que utiliza a sua capacidade de processamento para prover soluções de crédito únicas e, com isso, a construção de uma experiência para o usuário indescritível.

Enquanto isso, esse dilema povoa a mente de vários jovens que ousam confrontar o enigma da esfinge e pensar nas soluções que privilegiam a experiência do usuário.

É preciso mudar a mentalidade, deixando de empurrar produtos já embalados e prontos para clientes que estão cansados de entrar em agências bancárias sisudas, nas quais o funcionário mais poderoso é aquele que porta uma arma.

Na Europa, com o Diretiva PSD2, os bancos foram obrigados a abrir às fintechs o acesso às contas de seus clientes (obviamente mediante autorização). Com isso, o histórico financeiro passou a ser de titularidade do cliente e não mais uma informação comercial dos bancos.

No Brasil, o open banking também é um fato. A cada dia, soluções criativas se tornam possíveis e o mercado de API (Application Programming Interface) já é uma ferramenta viável. Essas estruturas dinâmicas e desconhecidas são uma ferramenta poderosa para criar soluções e atender novos mercados, mas grande parte dos executivos desconhecem essas tecnologias.

As APIs, por exemplo, economizam tempo, dinheiro e energia na montagem de softwares e sistemas completos, possibilitando integrar soluções já prontas e criar todas as ferramentas para que as empresas se tornem plataformas. A Netflix, por exemplo, abriu suas APIs para os desenvolvedores no início de sua operação. Logo, o serviço de streaming de vídeos passou a ser oferecido por milhões de dispositivos como celulares, Smart TVs, videogames e computadores sem custo dessa integração. Simples, API.

Esse novo jeito de oferecer serviços eleva o valor das companhias porque potencializa a relação com o consumidor, tornando-as um mecanismo vivo, que agrega e expande.

A história da telefonia é um bom exemplo de como o mundo está mudando, de sistemas fechados para plataformas abertas e orgânicas. A Motorola, por exemplo, foi por vários anos uma das vanguardistas em tecnologia. Porém, na década de 1990, enquanto o mundo colocava as suas fichas na telefonia digital, a Motorola insistiu em seus sistemas. Essa decisão foi fatal. Os soldados ficaram desprotegidos perante a artilharia inimiga.

Assim como a Motorola, Nokia, Sony Ericsson, Samsung e LG não notaram qual seria a estratégia vencedora, apesar de ela já estar sendo construída pela Apple. A empresa, à época liderada por Steve Jobs, criou uma plataforma, oferecendo aos desenvolvedores uma maneira de se conectar com os consumidores. Por meio da App Store foram disponibilizadas soluções do mundo inteiro.

Atualmente, entre as dez maiores empresas em valor de mercado, as cinco primeiras são plataformas. A mudança é necessária. Os negócios que desejam escalar exponencialmente precisam entender como esse modelo funciona. Precisam facilitar e criar experiência, participar da rede.

O futuro exigirá que as empresas criem uma cadeia que não privilegie apenas seu lucro final, mas sim que agregue o máximo de valor a seus produtos, remunere bem todas as áreas e permita o compartilhamento. Ofereça as soluções que a sua empresa encontrou para outras com a mesma demanda e seja remunerado por isso. Utilize as ferramentas dos outros para melhorar seus produtos e serviços. A tecnologia já está disponível. Basta colocá-la para trabalhar, seja para criar a próxima Apple ou para atacar um problema tão conhecido como spread.

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